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06 Ago 2018

Nova edição do Inaf não aponta avanços nos níveis de alfabetismo no Brasil

A nova edição do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) confirma tendência verificada nos últimos anos: embora a escolaridade média da população brasileira continue aumentando, não se observa crescimento da proporção de brasileiros e brasileiras com níveis de alfabetismo proficiente. O estudo mostra ainda que a proporção de analfabetos funcionais se mantém no mesmo patamar das últimas edições: três em cada 10 brasileiros são analfabetos funcionais, ou seja, mostram ter limitações para fazer uso da leitura, da escrita e das operações matemáticas em situações da vida cotidiana, como reconhecer informações em um cartaz ou folheto ou ainda fazer operações aritméticas simples.

Esta mais recente edição do Inaf, com base em dados coletados entre fevereiro e abril de 2018, foi coordenada pela Ação Educativa e Instituto Paulo Montenegro e realizada pelo IBOPE Inteligência. Conta com aporte de recursos por parte da Fundação Itaú Social, do Instituto C&A e da Fundação Roberto Marinho, além de recursos do IBOPE Inteligência e da família Montenegro. A gestão do projeto é da Conhecimento Social – estratégia e gestão.

          

“Desde 2001, quando iniciamos o estudo, houve grandes avanços na escolaridade da população estudada: a proporção de pessoas entre 15 e 64 anos que chegam ao ensino médio aumentou de 24% para 40% e das que chegam ao ensino superior passou de 8% para 17%; inversamente, a parcela da população nessa faixa etária que estudou no máximo até os primeiros anos do ensino fundamental (o antigo Primário) cai de 40% para 21%”, contextualiza Ana Lucia Lima, fundadora da Conhecimento Social e coordenadora do Inaf 2018, em nome do Instituto Paulo Montenegro. “Por isso é preocupante que não estejamos registrando incrementos mais significativos nos níveis mais altos de alfabetismo”, acrescenta.

Escolaridade
Os resultados de 2018 confirmam a escolaridade como o principal fator explicativo da condição de alfabetismo: quanto mais alta a escolaridade, maior a proporção de pessoas nos níveis mais altos da escala Inaf.

           

“Essa relação não ocorre de maneira absoluta ou linear: há uma significativa proporção de pessoas que, por exemplo, mesmo tendo chegado ao ensino médio e ao superior, não conseguem alcançar os níveis mais altos da escala de alfabetismo, como seria esperado para esses níveis de escolaridade”, diz Roberto Catelli, coordenador executivo adjunto da Ação Educativa.

De acordo com o Inaf, 13% daqueles que chegam ou concluem o ensino médio podem ser caracterizados como analfabetos funcionais e apenas um terço (34%) dos que atingem o nível superior podem ser considerados proficientes, o nível mais alto.

            

Apenas 45% dos entrevistados que chegaram ao ensino médio situam-se nos dois níveis mais altos das escalas dalfabetismo, mostrando que o fato de terem frequentado a escola não assegura que tenham habilidades suficientes para fazer uso da leitura e da escrita em diferentes contextos da vida cotidiana. Quanto aos que ingressaram ou concluíram o ensino superior, 96% são considerados funcionalmente alfabetizados, mas apenas 34% alcançaram o nível proficiente.

Mulheres e homens
As mulheres têm, em média, um desempenho ligeiramente superior ao dos homens, refletindo seus melhores indicadores educacionais. O Inaf indica que 72% das mulheres podem ser consideradas funcionalmente alfabetizadas, enquanto essa proporção é ligeiramente inferior entre os homens (69%). No entanto, é maior a proporção de mulheres no nível elementar, enquanto ambos os sexos apresentam proporções equivalentes nos níveis intermediário e proficiente.

             

Segundo a pesquisa, enquanto as mulheres representam 52% da população brasileira entre 15 e 64 anos, elas correspondem a 50% das pessoas analfabetas e a 48% daquelas com nível rudimentar de alfabetismo. Já do grupo elementar, as mulheres representam 54% do total. 

Quando a análise é feita por faixa etária, o Inaf 2018 aponta diferenças significativas na proporção de analfabetos funcionais entre mais jovens e mais velhos: enquanto 12% de jovens entre 15 e 24 anos situam-se na condição de analfabetos funcionais, esse valor chega a 53% junto àqueles entre 50 e 64 anos.

             

Vale notar que em todas as faixas etárias, é significativa a proporção de pessoas no nível elementar: mais de três a cada 10 brasileiros entre 15 e 49 anos, embora funcionalmente alfabetizados, têm significativas limitações para relacionar-se com as demandas cotidianas de uma sociedade letrada.

 

“O melhor desempenho dos mais jovens reflete os esforços em termos de políticas educacionais de expansão do atendimento na educação básica de crianças e adolescentes nas últimas décadas e, logo, os fracos resultados em termos de políticas educacionais voltadas aos adultos”, ressalta Roberto Catelli.


Cor / Raça
O Inaf 2018 mostra, mais uma vez, a grande desigualdade entre os grupos étnico-raciais no Brasil, com a população negra (pretos e pardos) com níveis de escolaridade mais baixos do que a branca.

Enquanto apenas 3% da população branca não tem nenhuma escolaridade, esta proporção é de 5% e 8% entre os que se declaram pardos e pretos respectivamente. Já nos níveis mais altos de escolaridade, as proporções se invertem: 25% dos que se identificam como brancos ingressam, concluem ou superam o ensino superior enquanto a parcela de pardos nesse nível de ensino é de 15% e de 12% entre os que se identificam como pretos.

Dentre os brasileiros de 15 a 64 anos que se declararam brancos, apenas 4% aparecem como analfabetos. Dentre os que se declaram pardos ou pretos, a proporção de analfabetos é de 7% e 11%, respectivamente.


              

O Inaf ainda indica que enquanto 77% dos brancos são considerados funcionalmente alfabetizados, a proporção é de 70% dentre os que se identificam como pardos e 65% dos que se declararam pretos.

“Dada a alta correlação entre escolaridade, alfabetismo e oportunidades de trabalho e renda, garantir avanços educacionais com foco na população negra é um dos fatores que podem contribuir diretamente para a redução das desigualdades raciais no país.”, afirma Ana Lúcia.

Situação no trabalho
Pouco mais da metade (56%) dos indivíduos que compuseram a amostra do Inaf 2018 estavam trabalhando, 22% desempregados ou procurando o 1º emprego, 10% eram donas de casa e 4% aposentados.

Os dados desta edição mostraram uma sensível redução na proporção de trabalhadores, dado que na edição de 2015, 63% dos entrevistados estavam trabalhando e 10% desempregados.

               

Destaca-se uma relação direta entre níveis de alfabetismo e situação no trabalho: enquanto 46% dos que foram classificados no nível analfabeto estavam trabalhando, esta proporção aumenta à medida que crescem os níveis de alfabetismo.


Comentários finais e perspectivas
Ao retratar os níveis de alfabetismo da população brasileira adulta, a edição 2018 do Inaf – a décima desde 2001 – permite acompanhar a evolução da série histórica e, ao mesmo tempo, trazer dados inéditos e complementares que evidenciam cada vez mais a necessidade de implementar e fortalecer estratégias que combinem políticas públicas e iniciativas da sociedade civil capazes de assegurar a incorporação de crescentes parcelas de brasileiros à cultura letrada, à sociedade da informação, à cidadania plena, à participação social e política e ao leque de oportunidades de trabalho digno, responsável e criativo.

“Os dados aqui apresentados são os resultados preliminares do Inaf 2018. Vários outros estudos estão sendo produzidos, com focos específicos abordando as relações entre alfabetismo e o mundo do trabalho e o alfabetismo no contexto digital. Estamos também trabalhando em análises segmentadas sobre os jovens, a população negra e as mulheres. Teremos ainda a oportunidade de aprofundar as relações entre alfabetismo e participação social e cultural bem como seus efeitos no acesso aos meios de comunicação e informação”, complementa Ana Lúcia.

Sobre o Inaf
A ONG Ação Educativa e o Instituto Paulo Montenegro desenvolveram e vêm realizando desde o ano 2001, em parceria, o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), um estudo para medir os níveis de Alfabetismo da população brasileira de 15 a 64 anos. O Inaf é organizado com base em um teste cognitivo e um questionário contextual. Os itens que compõem o teste de alfabetismo envolvem a leitura e interpretação de textos do cotidiano (bilhetes, notícias, instruções, textos narrativos, gráficos, tabelas, mapas, anúncios, etc.). O questionário contextual aborda características sociodemográficas e práticas de leitura, escrita e cálculo que os sujeitos realizam em seu dia a dia.

Sobre o Instituto Paulo Montenegro
Organização sem fins lucrativos criada em 2000 pelo Grupo IBOPE. A partir de 2016, quando novos acionistas passam a controlar parte das empresas do Grupo, a organização passa a ser mantida exclusivamente pela família Montenegro, tendo como principal foco de atuação o apoio à continuidade do Inaf.

Sobre a Ação Educativa
É uma associação civil sem fins lucrativos que atua nos campos da educação, da cultura e da juventude, na perspectiva dos direitos humanos.  Realiza atividades de formação e apoio a grupos de educadores, jovens e agentes culturais. Integra campanhas e outras ações coletivas que visam à realização desses direitos. Desenvolve pesquisas e metodologias participativas com foco na construção de políticas públicas sintonizadas com a as necessidades e interesses da população.

Sobre o IBOPE Inteligência
Empresa dedicada ao conhecimento do comportamento das pessoas e de todas as suas relações: familiar, social, política, de consumo e de utilização de serviços. Especialista em soluções de pesquisa de opinião e mercado, off e online, quantitativas e qualitativas, geonegócios, inovação, data mining e ferramentas de análise e integração de dados. www.ibopeinteligencia.com

Sobre a Conhecimento Social – Estratégia e Gestão
Fundada por Ana Lúcia Lima, que até 2015 atuou como diretora executiva do Instituto Paulo Montenegro, é uma consultoria especializada na produção de conhecimento no campo social. Atua ainda como representante do Instituto Paulo Montenegro sendo responsável pela coordenação do Inaf e sua porta-voz. www.conhecimentosocial.com

Apoio
Itaú Social
O Itaú Social desenvolve, implementa e compartilha tecnologias sociais para contribuir com a melhoria da educação pública brasileira. Sua atuação está pautada na formação de profissionais da educação, no fomento a organizações da sociedade civil e na realização de pesquisas e avaliações.

Fundação Roberto Marinho
A convicção de que a comunicação pode ser instrumento para transformação social motivou Roberto Marinho a criar, em 1977, a Fundação Roberto Marinho (www.frm.org.br). Entre os projetos desenvolvidos, destacam-se o Telecurso; o Aprendiz Legal, o Futura e os museus da Língua Portuguesa e do Futebol (SP), MAR - Museu de Arte do Rio, Museu do Amanhã e Museu da Imagem e do Som - em construção (RJ), Paço do Frevo (PE) e Casa da Cultura de Paraty (RJ). Saiba mais em www.frm.org.br

Instituto C&A
O Instituto C&A atua na promoção de uma indústria da moda mais justa e sustentável no Brasil. A organização, que se integrou à C&A Foundation em 2015, foca suas ações em cinco áreas: Incentivo ao Algodão Sustentável, Melhores Condições de Trabalho, Combate ao Trabalho Forçado e ao Trabalho Infantil, Moda Circular e Fortalecimento de Comunidades. Nos seus 26 anos de história, apoiou projetos na área de educação, temática que seguirá apoiando até 2018. A instituição oferece apoio técnico e financeiro e atua em rede para permitir que organizações sociais, marcas e outros agentes de transformação construam uma indústria da moda melhor.


Para mais informações sobre o Inaf, entre em contato com http://www.ipm.org.br/ ou 11 96300 2113

DADOS DA PESQUISA

Nome da pesquisa

Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf)

Margem de erro

O intervalo de confiança estimado é de 95% e a margem de erro máxima estimada é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos.

Tema

Educação

Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional)

Contratante

coordenada pela Ação Educativa e Instituto Paulo Montenegro e realizada pelo IBOPE Inteligência. Conta com aporte de recursos por parte da Fundação Itaú Social, do Instituto C&A e da Fundação Roberto Marinho, além de recursos do IBOPE Inteligência e

Período

01/02/2018 a 30/04/2018

Local

Brasil

Amostra

2.002 pessoas entre 15 e 64 anos de idade, residentes em zonas urbanas e rurais de todas as regiões do país.

ARQUIVO(S) PARA DOWNLOAD
Inaf 2018

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