Notícias e Pesquisas

12 Jun 2013

Maya Goetz fala sobre a relação entre crianças e televisão

?Maya Goetz veio ao Brasil para participar do Festival Comkids, que contou com o apoio do IPM e patrocínio do IBOPE.
As crianças podem ter pouca experiência de vida, mas quando o assunto é televisão, elas já sabem discernir desde cedo aquilo que gostam ou não de assistir. Mas apesar da idiossincrasia das escolhas, há fatores que ajudam a explicar o porquê da preferência por um ou outro programa infantil.

Para a Ph.D. Maya Goetz, pesquisadora da TV pública na Alemanha, os personagens que atraem a simpatia das crianças atendem à necessidades específicas apresentadas durante a infância.

Na palestra realizada na sede do IBOPE, em São Paulo, na última sexta-feira (7), a pesquisadora apresentou ao público estudos que demonstram o valor utilitário dos personagens infantis.

“Uma vez supridas as necessidades básicas da criança, como alimentação e integridade física, precisamos pensar nos outros tipos de carências que ela manifesta, como a necessidade de se sentir amada, competente e respeitada”, explica Goetz.

De acordo com a especialista, os personagens infantis carregam valores utilitários como conexão, reflexão, entendimento, empolgação, aprendizado e interação social, que contribuem como suporte simbólico na superação das dificuldades da criança, auxiliando no seu desenvolvimento. 

“Os personagens ajudam a criança na superação de seus dramas diários, desde a perda de um amigo que muda de escola à convivência com pais muito exigentes”, explica.

O caso Hannah Montana
O valor utilitário dos personagens fica bem explícito no caso da série norte-americana Hannah Montana. Na história, a personagem tem uma vida dupla, dividida entre os dias como Miley Stewart, uma garota comum que vai à escola, e Hannah Montana, uma popstar do mundo da música.

De acordo com os estudos de Goetz, o sucesso de Hannah está justamente na ambiguidade da personagem e na superação que ela tem de seus problemas. “Hannah é uma estrela do rock, ao mesmo tempo que é uma garota comum com problemas que o público também tem”, comenta.

Um estudo desenvolvido pela especialista com 115 meninas e 34 meninos fãs da série mostrou que um terço das crianças já sonhou em ser Hannah.
“Analisando cada episódio, vemos que 80% deles são preenchidos pelo lado normal da personagem. A história não é real, mas as crianças acreditam que é”, analisa.

Rosa x azul
O encanto por princesas não é inerente a toda menina, mas grande parte das garotas passa pelo que Goetz chama de “fase da princesa cor-de-rosa”, na qual esse tipo de personagem se torna uma referência constante no cotidiano delas.

“Nas meninas, o fascínio por princesas está relacionado, primeiramente, à experiência estética, para elas o rosa é bonito e encantador. Mas também há fatores que influenciam nesse comportamento, como a admiração pela mãe e a cura biográfica da família, que acontece quando pais e avós tentam dar à criança aquilo que não tiveram na infância”, explica Goetz.

Segundo a especialista, não há prejuízo para a criança nessa admiração, porém, é preciso se tomar cuidados. “O problema não é o gostar de rosa ou não, mas crescer com um padrão de beleza inatingível. A maior parte dessas personagens femininas tem um biótipo sem correspondência com a vida real”, analisa.

Já com os meninos a situação é diferente.  No caso deles, a incompatibilidade dos personagens masculinos com os homens da vida real é menor.
Mas se por um lado, os garotos não passam pela idealização excessiva do corpo, por outro, os personagens masculinos, em geral, apresentam pouco material simbólico para os momentos de fracasso dos garotos.

“Veja o caso do Bob Esponja; ele é um perdedor, mas nunca uma vítima da situação. Agora pense na Rapunzel, ela passa anos na torre e com o tempo a sua beleza aflora e isso a salva. Imagine a mesma história com um garoto, ele provavelmente ficaria fraco nesse tempo e seria chamado de fracote por não conseguir sair de lá”, analisa.


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