Notícias e Pesquisas

29 Ago 2019

Desinformação e vergonha permeiam relação dos jovens com a depressão

Os jovens brasileiros sabem pouco sobre a depressão, sentem vergonha de falar sobre o assunto e não estão convencidos sobre a importância do tratamento. Essas são algumas das conclusões da pesquisa Depressão, suicídio e tabu no Brasil: um novo olhar sobre a Saúde Mental, aplicada pelo IBOPE Conecta a 2 mil brasileiros, a partir dos 13 anos de idade, em diferentes regiões metropolitanas do País: Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Distrito Federal e Fortaleza. Em São Paulo, a amostra de entrevistados foi colhida na capital.  

O levantamento faz parte de uma ampla investigação sobre o cenário da depressão no País. E a resposta a essa realidade, permeada por mitos e desinformação sobre a doença no País, é o lançamento da campanha “Na Direção da Vida – Depressão sem Tabu”, uma parceria entre a Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (ABRATA) e a Pfizer, com participação do Centro de Valorização da Vida (CVV).

“Verificar o quanto existe de desconhecimento e vergonha sobre a depressão entre os jovens brasileiros é muito preocupante porque a doença representa um dos diagnósticos mais frequentes entre as pessoas que tiram a própria vida. E temos visto, nos últimos anos, o quanto as taxas de suicídio estão aumentando justamente na população mais jovem”, afirma a diretora médica da Pfizer Brasil, Márjori Dulcine.   

Os mitos associados à origem da depressão são, de fato, muito mais evidentes nas faixas etárias mais jovens contempladas pela pesquisa. Mais de um a cada quatro entrevistados do grupo de 18 a 24 anos (26%) considera, por exemplo, que se trata de uma “doença da alma”. Por outro lado, a porcentagem de pessoas que compartilham dessa percepção cai para 15% entre aqueles com 55 anos ou mais de idade.

A faixa etária dos 18 aos 24 anos também é aquela que expressa a menor confiança nas possibilidades de tratamento da depressão. Quase um terço desses jovens (29%) não está totalmente convencido de que a depressão é uma doença como qualquer outra, que pode ser tratada com sucesso. Já entre os entrevistados mais velhos, com 55 anos ou mais, esse porcentual cai para 18%. O dado de São Paulo também chama a atenção: 26% dos internautas paulistanos ou têm dúvidas ou desacreditam na chance de tratar a doença com sucesso. 

Quando se analisa o panorama entre os entrevistados ainda mais jovens, de 13 a 17 anos, a situação também é preocupante. Mais de um a cada cinco (23%) acredita, por exemplo, que não existem sintomas físicos na depressão porque ela seria “apenas um momento de tristeza” e não uma doença. “Essa percepção equivocada reforça a importância de um amplo trabalho de conscientização no Brasil. Posicionar a depressão como doença, para a qual existe tratamento, é importante porque ajuda a encorajar o paciente e legitima a sua busca por ajuda”, reforça Márjori.

Jovens: vergonha e silêncio

A desinformação sobre a depressão alimenta o estigma e a vergonha que o paciente sente. Não por acaso, os jovens demonstram constrangimento para falar do assunto na escola ou trabalho e, até mesmo, com pessoas do convívio próximo: 39% dos adolescentes de 13 a 17 anos dizem que não se sentiriam à vontade para dividir o problema com a família caso recebessem um diagnóstico de depressão, um porcentual bastante acima da taxa média verificada na amostra total de entrevistados, que foi de 22%, como indica a tabela abaixo:

Entre os jovens de 18 a 24 anos, o silêncio sobre a depressão também é uma defesa para a falta de confiança que eles sentem em seu entorno social: a maioria dos entrevistados dessa faixa etária, ou 56% do grupo, declara que também não se sentiria à vontade para contar sobre um diagnóstico de depressão no trabalho ou na escola, um porcentual que cai para 28% entre a população de 55 anos ou mais de idade. Considerando a amostra total da pesquisa, 44% dos entrevistados expressam esse mesmo comportamento. 

O principal motivo que levaria o grupo de 18 a 24 anos a esconder a doença no ambiente profissional seria a percepção de que seus colegas não costumam levar a depressão a sério e, portanto, poderiam não acreditar que a pessoa está realmente doente. Já em São Paulo, 40% dos entrevistados dizem que a principal motivação para essa omissão seria o fato de sentirem vergonha de admitir um eventual diagnóstico de depressão.

Ainda em relação aos entrevistados de São Paulo, mais de um em cada cinco (23%) afirma que, caso tivesse de visitar um psiquiatra, iria à consulta sem contar a ninguém. Esse porcentual chega a 25% entre aqueles de 25 a 34 anos. Além disso, 12% dos entrevistados do grupo mais jovem, de 13 a 17 anos, dizem que não iriam ao psiquiatra nem mesmo se recebessem o encaminhamento de um outro médico. No grupo de 25 a 34 anos, 31% daqueles que não iriam ao psiquiatra mesmo com uma recomendação acreditam que esse profissional trata doenças mais graves e que a depressão não seria algo tão sério.

Os adolescentes de 13 a 17 anos também são os que se mostram mais resistentes diante do tratamento para a depressão: 34% desses entrevistados dizem que não tomariam antidepressivos mesmo que o médico as prescrevesse. E 23% dos participantes de 18 a 24 anos teriam essa mesma atitude. “Essa resistência está associada a um profundo desconhecimento sobre os antidepressivos mais modernos. Vale lembrar que estamos falando de uma doença de elevado potencial incapacitante, associada a um desfecho trágico, que é o suicídio, mas que pode e deve ser tratada”, destaca Márjori.    

Homens: tabus e desinformação

Se entre os jovens ouvidos pela pesquisa a vergonha diante da depressão se destaca, os homens formam um outro público que merece mais atenção porque, entre eles, os tabus ligados à doença ganham força. Quando perguntados sobre a relação da depressão com a falta de fé, por exemplo, 30% dos homens ou indicam que essa associação é verdadeira ou afirmam que não sabem avaliar sua veracidade. Entre as mulheres, por outro lado, esse porcentual cai para 17%. Esse mito, em particular, também se destaca entre os entrevistados mais velhos, assim como é mais evidente entre os participantes de Fortaleza.

 A maioria dos homens também não está convencida de que ter uma atitude positiva e alegria de viver não são suficientes para vencer a depressão. Questionados sobre isso, 55% dos entrevistados do sexo masculino ou acreditam que essas atitudes bastam ou não sabem opinar. Menos da metade, ou 46% da amostra, tem a informação de que se trata de um mito. Além disso, para quase um terço desses entrevistados não está claro que a depressão não é mero sinal de fraqueza ou pouca força de vontade: 29% deles ou acreditam nesse mito ou, pelo menos, estão em dúvida sobre essa afirmação.

Assim como as mulheres, os homens também acreditam que é possível superar a depressão. Mas o suporte médico é menos valorizado por eles: quando perguntados sobre as formas mais importantes de vencer a doença, o acompanhamento médico aparece em terceiro lugar, ao passo que essa estratégia surge na segunda posição para o público feminino. Para ambos, o acompanhamento psicológico é o fator mais citado e, entre os homens, a prática regular de exercícios físicos se destaca também, em segundo lugar.

Questionados especificamente sobre o tratamento medicamentoso, os homens também se mostram mais resistentes do que as entrevistadas. Pelo menos um a cada cinco (21% da amostra) diz que não tomaria antidepressivos mesmo que o médico prescrevesse, um porcentual que cai para 16% entre as mulheres.  “Esse é um sinal de alerta muito importante se considerarmos que os homens compreendem a maior parte dos casos de suicídio e a maioria dessas vítimas sofria de transtornos mentais, como a depressão”, reforça Márjori.

Antidepressivos: um amplo desconhecimento

Mais do que indicar a presença de muitos mitos associados à depressão no Brasil, a pesquisa revela um forte desconhecimento a respeito dos antidepressivos.  Só 29% dos jovens de 18 a 24 anos discordam, por exemplo, da falsa afirmação de que os medicamentos mais modernos seriam menos eficazes, uma vez que tendem a provocar menos efeitos colaterais. A maioria, ou 61% desse grupo, não sabe opinar sobre esse assunto.

Entre os adolescentes de 13 a 17 anos, grande parte também não está convencida da eficácia dos antidepressivos. Metade deles fica em dúvida quando está diante da seguinte sentença falsa: “a maioria dos antidepressivos não funciona”. Os mais velhos estão melhor informados sobre essa questão e 58% das pessoas do grupo de 55 anos ou mais discordam dessa frase. 

Ainda em relação aos atributos dos antidepressivos, um em cada quatro entrevistados está convencido de que esses medicamentos poderiam “viciar o organismo”. Apenas 41% das pessoas da amostra geral da pesquisa discordam dessa informação. Em São Paulo, 59% dos participantes ou acreditam que essa afirmação é verdadeira ou não sabem responder.

Outros mitos populares, como a ideia de que todos os antidepressivos provocam ganho de peso, também aparecem no levantamento. Considerando a amostra total de entrevistados, 55% das pessoas ou concordam com essa afirmação ou não sabem avaliar se ela é verdadeira. Da mesma forma, para 61% dos participantes não está claro se todos os medicamentos usados no tratamento da depressão podem provocar a queda da libido. Só 14% dos ouvidos discordam da ideia de que os antidepressivos poderiam atrapalhar a concentração.

“Na verdade, tanto a falta de concentração como a queda da libido podem ser sintomas do próprio quadro depressivo. Assim, ajustar a medicação adequada para o perfil de cada pessoa é um caminho importante para auxiliar a restabelecer a funcionalidade desse paciente”, destaca Márjori.

Suicídio e o papel do psiquiatra

Os resultados da pesquisa indicam que a figura do psiquiatra começa a ganhar força nas faixas etárias mais maduras, acima de 35 anos. O público mais velho também tende a ter mais informações sobre os antidepressivos. Entre as pessoas com 55 anos ou mais, buscar um psiquiatra seria a primeira medida a tomar diante de um quadro de depressão severa, incapacitante. Em todas as outras faixas etárias, porém, é o auxílio psicológico que aparece em primeiro lugar. Em São Paulo, contudo, as pessoas disseram que inicialmente conversariam com um familiar: o psiquiatra aparece em terceira posição, depois do psicólogo.

Quando a pergunta é sobre o profissional mais indicado para tratar a depressão, mais uma vez a figura do psicólogo aparece, mencionado por 57% da amostra geral e por 80% dos jovens de 13 a 17 anos. Na comparação entre as regiões pesquisadas, apenas em Porto Alegre (RS) a menção ao psiquiatra prevalece. “As pessoas tendem a subestimar a depressão, como se ela fosse menos importante ou grave que outros transtornos mentais. Por isso, existe naturalmente uma resistência e um estigma associado à consulta com o psiquiatra”, comenta Márjori.

Entre os participantes mais velhos, porém, o psiquiatra é destaque quando os entrevistados são convidados a pensar sobre como agiriam diante de alguém que estivesse convencido de que a vida não vale a pena e pensasse na morte como uma solução. Buscar o suporte desse profissional especializado seria a primeira recomendação do grupo com 55 anos ou mais para essa pessoa. A maioria da amostra, contudo, responde que se oferecia para conversar sem julgar. Por outro lado, 28% dos homens diriam para o indivíduo “não pensar em bobagens”. Em Fortaleza, quase uma a cada quatro (23%)recomendaria que a pessoa buscasse uma religião.

A dificuldade em lidar com a temática do suicídio também se evidencia em diferentes pontos da pesquisa. Para 22% dos entrevistados, o assunto ainda é um tabu no Brasil e as pessoas deveriam falar mais abertamente sobre essa questão. Mais de 4 a cada 10 participantes afirmam que já conheceram alguém que tirou a própria vida e o porcentual chega a 51% em Belo Horizonte. “Esses dados apontam o quanto ainda existe espaço para fortalecer essa discussão junto à população, como forma de estimular uma conversa franca sobre a saúde mental com toda a sociedade”, completa Márjori.